quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Respeitável público


O circo desperta sempre um mundo de fantasias na mente principalmente de crianças. "Como vivem os palhaços? Como é viver viajando? E como é que dormem no circo?" São perguntas que Diego Alves de nove anos e muitas outras crianças fazem ao se depararem com o mundo mágico circense.
Nos circos encontramos diferentes realidades. Desde instalações precárias com arquibancadas de madeira oferecendo situação de risco aos telespectadores, até alguns que já aposentaram esse tipo de estrutura, menos arriscado para quem assiste e para quem oferece o espetáculo.
Apresentação do circo Transbrasil. Foto: Giomara Damasceno
Há disparidades gritantes entre o Circo Transbrasil e o Circo Show. Mas, uma coisa eles tem em comum: o circo ainda é um negócio familiar, vivido e administrado por várias gerações. Jurandir Brasil entrou no circo por fascínio e José Alfredo Silva conheceu a vida do circo após a morte de sua mãe, o pai, uniu-se ao circo, o qual ele nunca mais saíram.
O curioso nessas histórias é que ambos tinham nove anos. A mesma idade de Diego. E também de algumas crianças que crescem no Circo Show. E aprendem a vida circense brincando “Eles começam com pequenos números. Às vezes aparecendo ainda bebes em cena com os palhaços” explica Tom Barros que hoje comanda o circo que conta com mais de 50 pessoas, quase todos, membros da mesma família. É possível observar quatro gerações sob a lona, o fundador o seu J. Silva com filhos, netos e bisnetos. 
Enquanto seu J.Silva conta as histórias, aventuras – que incluem até rapto da esposa - e dificuldades com nostalgia, Tom preocupa-se com o futuro do circo “a vida no circo está ficando difícil. Antigamente o circo chegava na cidade e era aquele tumulto. Enchia de crianças. Hoje há crianças de 9 e 10 anos que nunca foram ao circo”.  Ele atribui a falta de interesse não à criança, mas ao uso das tecnologias, e exemplifica com o exemplo do próprio circo “antes nos juntávamos todos no picadeiro e brincávamos e conversávamos. Hoje, cada um tem a sua tv a cabo, sua internet. Fica cada um no seu trailer. Não há mais aquele momento de convivência. Antigamente se um carro quebrava na estrada, a gente não esquentava tanto. Acendíamos fogueira e ali passávamos dias. Agora se um carro quebra e a gente passa um dia, parece que vai morrer”.
Além da queda de público, a queixa dos circenses é encontrar espaço nas cidades para instalarem-se  “a gente ficou aqui meio escondido, o povo tem de medo de vir”. Mas para Tom o circo não irá acabar “ há alguns anos achei que o circo ia acabar, logo depois foram surgindo muitos circos novos. O circo não vai ter fim.” desabafa.

 *Por Giomara Damasceno

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Inah Tôrres – “O começo do jornalismo social de Petrolina”


Por Alexandre Borges e Lícia Loltran

Foto: Arquivo pessoal



Uma menina “assanhada”

 “Quando eu era pequena diziam que eu não ia dar para o que prestasse”. Era essa ideia que a sociedade da década de 40 fazia de uma menina de 13 anos querendo trabalhar fora de casa, mesmo Inah trabalhando com o pai e o irmão. Seu pai foi diretor do jornal “A Defesa” em Caruaru, terra natal de Inah, e seu irmão era distribuidor de jornais na capital Recife. Dessa forma, a cada dia a jovem se interessava mais pelo universo das letras e se entusiasmava em participar de tudo aquilo. Seu pai, que era um autodidata e sempre incentivou os filhos a lerem jornal, deu a primeira oportunidade da filha em escrever no jornal “A Defesa”.Inah, entusiasmada com a ensejo, escrevia pequenos textos para o jornal até o dia em que, um tanto quando ‘assanhada’ com o mundo do jornalismo e suas possibilidades, resolveu escrever quadrinhos sobre ‘O Beijo’. Seu João Tôrres, pai de Inah, não permitiu que a filha escrevesse novamente para o jornal.

Mesmo com a proibição, a jovem Inah continuou trabalhando na parte administrativa do jornal e se encantando com todo o processo, desde a produção na tipografia, onde ela relata a minuciosa criação do jornal, desde a montagem das letras, às prensas e outros aspectos de confecção do jornalismo da época. Inah Tôrres cresceu entre os jornais, o pai dirigia um, o irmão distribuía, e a rua que ela mais adorava e frequentava em Caruaru, era a Rua Vigário Freire, composta de vários jornais em toda sua extensão. Foi assim, que a menina ‘assanhada’ foi crescendo e trabalhando com o jornalismo, mas ainda queria que seu nome estivesse nas páginas, queria poder falar do que gostava nas páginas do jornal, do seu jeito, queria ser jornalista social.

Mas, Inah Tôrres ainda continuaria conhecendo o processo dos bastidores quando foi trabalhar com seu irmão Luiz Tôrres na sessão administrativa da distribuição de jornais. Assim, ela, que amava conversar, ficava sabendo das principais notícias e também tinha acesso a inúmeros jornais diferentes. A oportunidade que Inah aguardava não demoraria a se concretizar. Todo o incentivo recebido de seu pai e irmão refletiria, como explica Inah, em toda a paixão da família pelo jornalismo. Legado que Inah recebeu e que deixa também para seus filhos e netos, muitos deles também envolvidos nesse mundo fantástico, que é o jornalismo para a família Tôrres.


 “Aí é com você!”

Chegando à Petrolina em meados dos anos 70, graças a uma série de fatores – entre eles o casamento, o fato de querer ficar perto do marido e a presença de Joãozinho do Pharol, Inah nunca mais foi a mesma. Quando fala do querido amigo Joãozinho, seus olhos brilham e, nos lábios, aparece um sorriso inocente de adolescente.
- Aquele homem era retado! – diz, risonha.
Pedida, inclusive, para definir o jornalismo da época na cidade, Inah não titubeia e, da sua boca, sai a expressão: “A grandiosidade de Joãozinho do Pharol.”
Ela conta, feliz, que foi a primeira mulher a assinar um jornal na região. Muitas moças já trabalhavam em outros processos de produção, como na tipografia (a qual ela descreve tranquilamente, como se tivessem se passado dias ao invés de anos), mas Inah foi a pioneira DENTRO do jornal. A ideia era escrever uma coluna social.
- Mas Seu Joãozinho, como ela vai se chamar?, Inah questionara
- Ah, Inah, aí é com você! – ela narra, procurando gesticular com as mãos e demonstrar com a face gestos característicos do grande amigo do passado.
Surgia assim o Com Você... Crônica Social. E começava, dessa maneira, ainda que gradualmente, a consagração de Inah dentro do jornalismo social. Ela afirma, com um sorriso arteiro no rosto, que as pessoas queriam sair em sua coluna. E é com o mesmo sorriso, só que agora de orgulho, que ela diz que nunca aceitou nada de ninguém por um lugar no jornal.
- Eu escrevia sobre tudo; eu queria escrever tudo. Não gosto, até hoje, de notinhas pequenas.
À época, Petrolina já demonstrava claros sinais de avanço, não só pela chegada das máquinas que aceleraram o processo, mas por uma combinação de fatores. Inah é categórica ao afirmar:
            - Já se falava em Petrolina ser grande. Tudo isso que a cidade é hoje... A gente já imaginava.
Questionada sobre o regime militar que àquela época vigorava, Inah não titubeia:
- Eu era apaixonada pelos militares! Se eu pudesse, teria me alistado.
E termina o assunto afirmando que nunca sofreu censura.     

“Minha paixão é o papel”

Quando o assunto se volta para o rádio, especificamente a Radio Grande Rio AM, a qual Inah começou a fazer parte em 1982, após um convite de Carlos Augusto, seus olhos brilham. Começava, assim, o Em Sociedade, uma versão radiofônica do Crônica Social, por assim dizer. O programa está no ar até hoje.
Contudo, Inah deixa claro: “Minha paixão é o papel.” Tece distintos elogios ao rádio e sua capacidade de difusão, mas diz que o mesmo perde na capacidade de se perpetuar. “Papel é pra sempre. Não vai acabar. A gente pode ler hoje um jornal de 20 anos atrás.”
E é tal paixão que a faz ser categórica quanto ao pensamento de que hoje em dia jornalista não precisa mais ter diploma.
- Eu fico triste. Na minha época, só tinha diploma quem era rico, quem podia mandar os filhos estudarem em Recife. A gente aprendia na garra. Mas eu fazia tudo direitinho. O meu registro é um dos 100 primeiros.
De fato, o registro de Inah junto ao Conselho de Jornalistas é o de número 097.
- Naquela época, era isso que a gente tinha que fazer para legalizar. Mas durante o processo, a gente continuava trabalhando. Eu disse: “Me tire daqui que eu arrumo um advogado, te processo e ganho.” Alguém tentou me impedir de fazer o que eu amava? Não.
E, de fato, nos perguntamos: Quem seria o louco?

A animação de hoje e sempre
Inah Tôrres, com uma simpatia e animação contagiante, relembra do momento e do sentimento que a tomou quando foi convidada para escrever sobre Petrolina no Diario de Pernambuco e no Jornal do Commercio. Para ela, escrever sobre a cidade de que a acolheu de braços abertos, em dois veículos que são de suma importância para a região tornou-se sua maior alegria.

No Diario, Inah escrevia meia página sobre eventos, grandes acontecimentos e personalidades da cidade. Inah Tôrres conta que, várias vezes, recebeu ofertas que tentavam comprá-la para que pudessem aparecer em suas colunas sociais. Essas propostas tornaram-se frequentes, mas a ética sempre andou de mãos dadas com a jornalista. “Uma vez eu fui comer em um restaurante e disseram-me que eu não iria pagar nada. Que era só colocar uma notinha na minha coluna. Não aceitei e paguei meu almoço. Se eu gostar do local, da comida e for bem atendida, aí sim eu escrevo sobre”, explica Inah.

Ao ser perguntada sobre “a Inah de ontem e a Inah de hoje” ela responde rápida, que não há mudança. Continua com a mesma dedicação, esforço e amor ao jornalismo. Diz entre sorrisos que adora se doar para as pessoas e dar boas notícias.“Se eu tiver que dar uma notícia ruim, eu dou. Mas dou com alento”, afirma com os olhos sérios e perspicazes. Prestigiada por onde passa e requisitada para contar sobre a sua história com o jornalismo, Inah interrompe seu depoimento para atender uma ligação que a convidava para mais uma entrevista. Convites que já fazem parte da sua rotina há muito tempo. Para os jornalistas que estão começando, a jornalista lembra que “é importante ter humildade e não passar por cima das pessoas para ganhar espaço e oportunidades” conclui a sempre brincalhona e sorridente, filha adotada de Petrolina, Inah Tôrres.                     

domingo, 3 de novembro de 2013

Voltando pra casa...



03 de novembro, Por volta das 20h.

Voltando da casa de minha avó pela BR 407, após um feriado. Notamos o pisca alerta de uma carreta ligada na pista. O primeiro pensamento? Assalto. Como meu tio mesmo disse, estávamos numa “bocada”. Passamos pelo caminhão pela faixa oposta e devagar observamos o que acontecia. Vi uma moto caída e um homem ao chão. Segundo pensamento?  Acidente e morte. Era quase isso. Meu tio encostou o carro e quando abri a porta e olhei para trás o moço caído levantou-se e caiu novamente, dessa vez entre as faixas, bem ao centro da pista. Olhei para minha mãe e anunciei: “o cara tá bêbado”. 
Foto: internet
Por sorte, muita sorte mesmo, nossa e do senhor aparentando uns 40 anos chamado Adalberto, um caminhoneiro avisou pelo rádio para o outro que vinha em mão contrária que tinha um cara “sambando na pista”. O segundo caminhoneiro sabidamente parou o caminhão e presenciou ele bater naquelas pontes que há em pistas onde corre rio intermitente. Adalberto aparentemente não teve nada. Algumas escoriações leves no pé e no nariz. Mas foi por pouco. Para ele e para nós.
A lei seca completou dois anos esse ano, já foi até tema da redação. Mas é levada por muitos na brincadeira. Apesar da redução significativa de acidentes - segundo a Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco foram 14,8% no interior do estado- todo feriado, prolongado ou não, somos bombardeados por notícias de acidentes  e óbitos que aconteceram por este motivo. Uma combinação – sendo clichê, porém não menos verdadeira – perigosa e mortal.
Ao caminhoneiro que parou o caminhão e evitou uma tragédia, meu muito obrigado, por mim, por minha mãe, tio e irmão que estávamos no carro que provavelmente nos envolveríamos num grave acidente. Ao Adalberto, cuidado. Não o desejo mal. Mas, que dessa vez isso te sirva de lição. Como disse minha mãe a você “Agradeça a Deus, porque você escapou por pouco”.  Bebida e direção não devem ser combinadas jamais.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Gangorra pernambucana

Futebol Pernambucano reflete em campo deficiência da administração 


Artigo de opinião

Maria Yamakawa - O Mundo do Vale

O esporte tem lugar especial na vida de muitos brasileiros. Há quem fique mal com a derrota do time no final de semana, quem chore com vitórias. E com os torcedores pernambucanos não seria diferente. Porém, Pernambuco não tem motivos para se alegrar com o futebol jogado por aqui.


Futebol pernambucano vive de "sobe-desce" na série 
A do Campeonato Brasileiro (Foto: Goleadape.wordpress.com)

Náutico, Sport e Santa Cruz são os maiores clubes do estado. O primeiro já está matematicamente rebaixado da Campeonato Brasileiro Série A 2013, o Santa Cruz disputa a terceira divisão do nacional. Em contrapartida, o Sport está há poucas rodadas de retornar à elite do futebol brasileiro. O histórico do trio demonstra o efeito sobe-desce do esporte em Pernambuco.

Embora o estado venha sendo representado na elite do campeonato nacional, os clubes de Pernambuco não são competitivos. Ora alternam rebaixamentos ou jogam para cumprir tabela, já que não lutam para conquistar títulos.

Trio de peso? (Foto: vidanews.net.br)
Esse efeito pode ser resultado do abismo existente entre a administração dos clubes formadores do eixo Sul-Sudeste. Falta de profissionalização de gestores, treinadores e até mesmo jogadores resulta em clubes fracos diante de outros mais bem preparados.

Náutico, Santa Cruz e Sport são grandes quando comparados à Petrolina, Araripina, Belo Jardim, Ypiranga, Salgueiro, entre outros clubes interioranos. Mas quando aquele trio confronta clubes de outros estados, percebe-se a distância técnica entre o futebol do estado. 

Isso chega a ser uma contradição, pois muitos atletas de renome nacional e internacional começaram suas carreiras em Pernambuco e outros estados do Nordeste. Por que somo capazes de revelar jogadores, mas não de ter clubes competitivos?

No próximo ano o Sport provavelmente representará Pernambuco na primeira divisão. O Náutico se juntará ao Santa Cruz (caso esse último consiga o acesso à Série B). Se o esporte pernambucano não tiver como alicerce uma gestão séria, preocupada com títulos e em construir um nome forte no esporte, não demorará muito, o estado ficará sem representantes na elite do futebol nacional.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Entre a cruz e a espada

Semana passada, 395 estudantes de diversos campis da Universidade do Estado da Bahia se reuniram em Salvador para a XVII Jornada de Iniciação Científica da UNEB, evento que reúne todos os bolsistas de pesquisa da universidade. O objetivo era a socialização das pesquisas realizadas nos mais diversos lugares da Bahia e a avaliação das mesmas. 


Mesa de abertura da XVII Jornada de Iniciação Científica
Foto: ASCOM Uneb
O número é mais alto do que o do ano passado, que contou com 380 bolsistas. 

Segundo Leandro Coelho, gerente de pesquisa, na palestra de abertura, o número maior de bolsistas é uma prova do quanto a Uneb vem avançando na área, seja em parceria com as instituições de fomento, como FAPESB e CNPq, ou com o seu próprio programa de bolsas, o PICIN. O gerente ressaltou ainda o fato de as bolsas do PICIN estarem com um valor um pouco mais alto que as de FAPESB e CNPq.

Adriana Mármore, vice-reitora, que compôs a mesa representando o reitor Lourisvaldo Valentim, ressaltou a importância da pesquisa para a formação acadêmica do estudante, por "despertá-lo para coisas que ele dificilmente notaria no seu dia-a-dia como estudante." Ela ainda afirmou que o intuito é fazer com que cada vez mais estudantes façam parte da pesquisa e que as jornadas sejam cada vez maiores.

Quantitativamente, é um avanço sutil, mas que revela uma prática cada vez mais comuns: A pesquisa acadêmica começa a ganhar um espaço cada vez maior na vida dos estudantes, em detrimento de outras ações, como estágios na área, já que, para ser bolsista de Iniciação Científica, esse é um dos principais requisitos: Não possuir qualquer vínculo empregatício. 

Ana Carla Nunes, 21 anos, diz que pensou muito antes de decidir fazer pesquisa exatamente por isso. "Como estudante de jornalismo, que quer seguir carreira na área, fiquei muito em dúvida, porque sabia que a partir do momento em que entrasse na pesquisa, estaria abrindo mão do estágio." Hoje, 1 ano e alguns meses depois, Carla diz não ter se arrependido. "Aprendi muitas coisas na pesquisa que uso diretamente nos meus trabalhos jornalísticos. É uma experiência enriquecedora." 

Diferente de Carla, Fabiana Silva, 24, já entrou na faculdade pensando em seguir pesquisa. "Vim para a Uneb de uma graduação em licenciatura e, por mais que goste do jornalismo, sempre pensei em seguir carreira acadêmica. Dessa forma, tinha consciência da importância que a pesquisa teria nisso, já que é a porta de entrada para o mestrado."

Com dois anos de pesquisa, Fabiana diz já se sentir pronta para o mestrado. Segundo lugar na área de linguística na jornada, a concluinte do curso de comunicação social afirma que os estudantes deveriam ter um melhor olhar sobre a pesquisa. "Acredito que o grande problema é que não há conhecimento da pesquisa. Os estudantes não sabem quais as pesquisas em andamento e achar que abrir mão de um estágio para fazê-la é o fim do mundo. Não é. Você ainda pode se envolver nos projetos de pesquisa da faculdade."

Na mesa de encerramento da XVII Jornada, Leandro Coelho falou com orgulho sobre o evento. "Recebemos o elogio do CNPq. Segundo eles, somos uma das melhores jornadas de iniciação científica do Brasil."

Por: Alexandre Borges

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Campeonato de Futebol Amador de Petrolina: Um baú de memórias

Eram quase sete horas da noite, numa segunda-feira. Aguardávamos nosso entrevistado do lado de fora da sua oficina de refrigeração, em Petrolina. O ex-jogador Louveci Rodrigues dos clubes Petrolina e 1° de Maio terminava mais um dia de trabalho. Depois de apagar as luzes, fechar os portões do seu local de trabalho, Louveci demonstrando cansaço, mas não perdendo a simpatia, nos convidou até sua casa para relembrar seus dias de glória nos gramados do futebol amador e profissional.

Se há uma família que possui histórias sobre o futebol na cidade, sem dúvida alguma é a de Louveci. De 14 filhos, Vé - como era carinhosamente chamado dentro de campo- é o 10º filho, dentre 11 homens, todos jogadores.

Louveci atuou na equipe do América nos anos 1970 (Foto: Arquivo Pessoal)
Assim como Louveci, outros 9 irmãos passaram por times amadores e profissional em Petrolina. Sua família sempre fez parte de equipes de futebol no bairro. Começou no Ferroviário que era o time de sua família, e depois atuou no Caiano, Palmeiras e América que eram os maiores times da cidade na época.

“Eles contratavam os jogadores que se destacavam nos times menores e botavam nas equipes com maior força. Na minha época, quando fui pro América, do meu time fomos eu e mais três jogar lá” relembra.

O fato dos homens da família atuarem no futebol amador resultou num apelido carinhoso para os Rodrigues. Em um dia de jogo entre amigos, Louveci e os 10 irmãos iam juntos para o local de um jogo que os marcaria para sempre.

“Nós temos uma família de 14 irmãos, com 11 homens. Ai tinha os campeonatos em bairros. A gente ia pro Quati, pra Cohab todo mundo junto. Um ficava na casa de um e outro, só andava junto. Num dia alguém falou ‘olha parece um monte de gato, tudo junto’. Esse apelido pegou e só passara a chamar a gente de ‘os gatinhos’".

Lateral polivalente, Louveci jogava em duas posições, mas nos times grandes não teve muita oportunidade e sempre ficava no banco, até a chegada do 1º de Maio, onde foi campeão do primeiro, segundo e terceiro turno.

O período de Louveci na reserva teve fim quando o jogador foi para o 1º de Maio, onde foi campeão absoluto das três fases do campeonato amador.

Campeão absoluto no centenário 

No 1º de Maio Louveci viveu os melhores anos de sua carreira. O ano era 1975, data que marcava o centenário de Petrolina. O modesto time azul e branco se organizava para participar do campeonato amador.

Louveci e as lembranças do período em que era lateral (Foto: Giomara Damasceno)
Ao início da competição, todos apontavam os favoritos Caiano, Palmeiras e Amércia como favoritos, eis que o 1º venceu todas as três fases daquela edição do campeonato. Apresentando um futebol de saltar aos olhos da torcida, o time de seu Louveci jogou de igual pra igual e conquistou o torneio do centenário.

O bom futebol do 1º de Maio naquele ano rendeu jogos com os grandes times de Pernambuco, como o Naútico, Santa Cruz e Sport. Mas Louveci relembra que na sua época de jogador, todo mundo ia pra campo pelo amor ao esporte e não por dinheiro. Os jogadores trabalhavam durante a semana e jogavam aos finais de semana. Havia ocasiões em que os jogos eram fora da cidade e a equipe tinha que viajar.

“A gente jogava no domingo, viajava na sexta de madrugada, passava o sábado descansando. Jogava domingo de manhã cedo ou de tarde. Terminava o jogo só fazia tomar banho, jantar e vinha de lá pra cá. Chegávamos segunda de manhã. Não aguentávamos nem trabalhar. Foi muito sacrifício. Mas, foi gostoso” comenta Louveci.

O ex-lateral atuou por alguns anos no futebol profissional, vestindo as cores do 1º de Maio. Segundo ele, o que atrapalha os clubes da cidade são as pessoas por trás da direção.

“Não tínhamos muito apoio. Os empresários ficavam com receio de investir. Estávamos começando como profissional. Não sabiam se íamos dar certo. Hoje, eles não pagam salários, atrasam cinco, seis meses e nenhum jogador quer ficar sem receber” diz.

Entre as várias lembranças do período em que jogava, Louveci destaca as “aventuras” vividas na estrada. “Teve uma vez que na volta o ônibus quebrou na estrada. Perto de Arco Verde, no meio da noite. Era meia noite ou uma hora da manhã. Aí a gente ficou no meio da estrada. Dormimos no posto. No posto passa muito caminhão. Pegamos um caminhão. Em cima da carga. Só que o caminhão não vinha direto pra Petrolina. Ia descarregar em Santa Maria. Um menino tinha uns trocados, daí pegamos um carro de linha” conta em meio a risadas.

Ainda hoje Louveci joga futebol, mas só entre amigos. A maior parte do seu tempo é voltada para o trabalho de técnico em refrigeração e à família. Avô de um menino de quase um ano, Vé espera poder compartilhar suas histórias com as próximas gerações.

Época áurea do futebol amador 

Outro jogador do futebol amador em Petrolina é Francisco Héldder Viana que jogou há 10 anos. Ele passou pelo time do Petrolina e pelo 1º de Maio e há 15 anos está envolvido diretamente com o futebol amador da cidade.

Atualmente, Héldder é presidente da Liga Desportiva Petrolinense (LDP) – órgão responsável por organizar as competições amadoras na cidade.

“No tempo que eu joguei, a gente via que o estádio estava sempre lotado. As torcidas de todos os times vinham [assistir ao jogo]. Eram do Caiano, América, Palmeiras e de todas as equipes” relembra Héldder.

Fora dos gramados, Hélder não abandonou o futebol (Agência CH)
O período em que Hélder atuou foi o auge de grandes jogadores, os quais inclusive jogaram em times de maior expressão nacional.

“Era um campeonato para revelar jogadores. Na minha época, que foi uma geração muito boa, surgiram grandes nomes que chegaram a jogar no profissional em times da capital” relembra.

Entre as grandes revelações do futebol amador da cidade está Juninho Petrolina. O atacante que teve o auge da sua carreira na década de 90, quando revelado pelo time do 1º de Maio, foi jogar em times como Atlético Mineiro, Sport, Vasco da Gama e Vitória de Salvador. Juninho atuou ainda em clubes de Portugal, como Belenenses, Beira Mar e Penafiel.

Outros nomes citados por Héldder são Ailton que jogou no Atlético Mineiro, Europeu, Ovoredo e Genilson.
Torcida: gerações distintas 

No começo dos anos 2000, o campeonato amador passou por mudanças com a profissionalização do futebol. Na opinião de Héldder a chegada do futebol profissional à região e desorganizou o amador. “O futebol profissional chegou de uma forma tardia e ainda desorganizou o amador, tanto aqui como em Juazeiro [da Bahia, cidade vizinha a Petrolina]. Somente agora que estamos conseguindo dar uma nova cara no futebol amador, para que a gente também possa revelar jogadores para o time profissional da cidade.”

A profissionalização de 1º de Maio e do Petrolina afetou o futebol amador de tal forma que entre 2005 e 2010, o campeonato amador organizado pela LDP ficou interrompido, sendo retomado apenas em 2011. Nesses cinco anos, o futebol profissional cresceu em incentivo da mídia local e de patrocinadores, deixando o amador na reserva.

Com a retomada do campeonato amador, a Liga Desportiva Petrolinense mantém os 9 clubes filiados desde sua criação: Caiano, Palmeiras, Flamengo, Ferroviária, 1º de Maio, Petrolina, América, Santa Cruz e Náutico.

Mas com a profissionalização do futebol, dois times despontaram. Até hoje a rivalidade entre o Petrolina e o 1º de Maio é grande. Segundo Héldder, um torcedor do 1º de Maio, no inicio de uma partida entre o Azulino e a Fera Sertaneja invadiu o campo e começou a abraçar o time. O torcedor apaixonado quase foi preso.

Tal fato ocorreu pela torcida do 1º de Maio ser “mais fiel e apaixonada, além de ser em maior número naquela época.”.

Tanto Louveci Rodrigues e Francisco Héldder tem um desejo em comum. Que o futebol amador não caia no esquecimento. “Isso faz parte da história. Os jogadores de hoje estão ai, viajando em ônibus com ar condicionado, enquanto a gente viajava naqueles sem condição. As pessoas não podem se esquecer do que fizemos” desabafa Louveci.


Por: Alieny Silva, Giomara Damasceno, Maria Akemi Yamakawa

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Fora da Sala de Aula e do Facebook

Editorial

O jornalista Geneton Moraes Neto, ao definir para a revista “Pensamento” as dez coisas que aprendeu sobre ser jornalista, reproduz a famosa frase da Primavera de Praga:

--- Acorda, Lênin: Eles enlouqueceram!

Só que modifica a expressão para:

--- Acorda, Gutemberg: Eles enlouqueceram!

O que o jornalista quer dizer é que é possível fazer jornalismo vivo, criativo, interessante e que não se pode deixar os dinossauros das redações acabarem com os sonhos de quem acredita nessa forma de jornalismo. Dentro desta questão e entrando também no ambiente acadêmico, o conselho de Geneton Neto também pode nos fazer pensar sobre a necessidade de que o jornalista em formação (aluno do curso de jornalismo) precisa se desconectar dos referenciais teóricos ou de pensamento interesseiro (estágio) para compreender o jornalismo em sua prática, ultrapassando as portas da universidade e aplicando tudo o que viu, ouviu e produziu em meios de comunicações reais, que fazem parte da sua realidade.

Essa iniciativa da visita de acadêmicos aos meios de comunicação deve ir além da observação e entrar no campo crítico, questionador e pensante. E foi dessa forma que os alunos do sétimo período do curso de Comunicação Social – Jornalismo em Multimeios da Universidadedo Estado da Bahia (UNEB) realizaram nesta segunda-feira (28) uma aula-visita à sede da Tv Grande Rio em Petrolina. Os alunos, na semana passada, também visitaram a Tv São Francisco, que está localizada em Juazeiro.

O motivo principal da visita era conhecer como funcionam os setores que fazem parte do jornalismo da emissora e também dialogar tudo que foi aprendido em sala com os responsáveis pela programação. Na oportunidade, o diretor de jornalismo, Elizandro Oliveira, apresentou, tirou dúvidas e respondeu aos questionamentos da turma de cerca de 20 alunos e da professora responsável pela disciplina, Fabíola Moura.

Um dos assuntos abordados e que tem relevância especial para este blog, diz respeito ao uso das redes sociais na produção das pautas da emissora. É inegável que estamos na era do repórter multimídia, do produtor multimídia, do jornalista sentado, do analista de redes sociais, dos blogs, comentários, twitter e Facebook. No entanto, a discussão sobre o uso dessas ferramentas ainda gera polêmica e beira até a discussão sobre a própria indolência do repórter ou produtor. Seriam os dinossauros aos quais Geneton se referia? Dificuldade de adaptação? Nada disso? Só os consumidores dirão. Porque jornalismo é feito para o povo e pelo povo. E se o povo clama por Facebook?



Imagens: Lícia Loltran

Fotos da visita da turma do 7º período da UNEB à Tv Grande Rio